Segundo dia: Monte Mor-SP x Elias Fausto-SP (34 km)
Saí bem cedo naquele dia. No caminho, encontrei uma goiabeira carregada e peguei algumas frutas. Foi também a primeira vez que passei por um pedágio sem precisar pagar. Mas o que mais marcou foi o tanto que precisei empurrar a bicicleta. Maria continuava pesada, enquanto Juliano seguia bem.
No meio do percurso, vivi um momento que nunca esqueci: ganhei comida pela primeira vez. Meu maior medo na viagem era passar fome, e aquele dia me mostrou que o caminho estava se encarregando de mim. Um grupo de policiais rodoviários me presenteou com um marmitex incrível. Foi um gesto simples para eles, mas para mim significava muito. Aquilo me deu forças.
Quando saí de Hortolândia, tinha apenas R$ 59 no banco. Comida para alguns dias e uma mentalidade positiva de que tudo daria certo. Meu foco era sobreviver: comer, beber água e me abrigar. O resto era secundário. Eu estava saudável, jovem, e conforto nunca foi prioridade. Estava em busca de algo maior. Ganhar aquela refeição foi um bom presságio.
Depois de pedalar 34 km, parei em outra base policial na rodovia e pedi abrigo. Montei minha barraca e usei o banheiro para tomar meu primeiro banho de torneira. E, por incrível que pareça, fiquei animada com isso! O dia tinha sido bom, nada de ruim acontecera, e eu estava vivendo uma grande aventura.
Foi ali que caiu a ficha: eu estava em uma cicloviagem.
Lembrei de quando tinha cerca de 13 anos e vi, pela primeira vez, uma bicicleta de cicloviagem com alforges. Aquilo me impressionou profundamente. Sempre amei bicicletas. Brinco que aprendi a pedalar antes de andar. Quando tinha 8 anos, ganhei minha primeira bike do meu pai, uma cross estilo BMX. Pedalei por anos e conheci minha cidade com ela. Era minha maior companheira.
Mas, com o tempo, cresci e a bicicleta ficou pequena. Acabei deixando-a de lado. Anos depois, já adulta, uma ex-namorada fez um comentário que mexeu comigo: "Por que você tem tantas coisas que não usa?". Foi um choque de realidade. Aos 19 anos, percebi que acumulava coisas sem sentido. Aos 21, tomei coragem e vendi minha super bicicleta. Foi difícil, mas necessário.
Foi a coisa mais difícil de desapegar até hoje em minha vida. Mas, creio que tenha sido importante. Criei um hábito de desapegar tão grande que me ver ali, quase uma década depois fazendo uma cicloviagem onde toda minha vida material cabia em uma bike, fez eu refletir. Foi simbólico, uma bike, novamente uma lição, novamente uma bike.
Foi incrível.
Me fez pensar sobre o contexto da coisa e quão louco foi todo esse caminho. Anos separavam um momento do outro e me notar vivendo aquilo, daquela forma, me fez feliz em ver que estava colocando em prática aquilo que eu acreditava. O material importa. Eterniza. Tem significado. Mas o material é material.
E isso não importa.
No final daquele dia, reencontrei um velho amigo: Ivo, um português que é mais brasileiro do que português. Em 2021, na viagem de kombi pela Bahia, ele e sua família me acolheram e me ajudaram com um conserto no carro. Passamos cerca de um mês juntos, nos tornamos amigos. Naquela noite, Ivo estava sozinho, e foi ótimo revê-lo.
Conversamos muito, matamos a saudade e dormimos. Ele em sua kombi, eu na minha barraca.
Lembro que foi para ele que contei, pela primeira vez, sobre meu plano de ir de São Paulo ao Ushuaia de bicicleta. E que bom que foi ele! Seu entusiasmo me empoderou e fez eu acreditar que era possível. E estava sendo.
Imaginem só se a primeira pessoa a quem eu contasse tivesse me desencorajado? Talvez eu nem estivesse escrevendo esse blog agora.
Ivo, que estava voltando do Ushuaia, me presenteou com roupas boas de frio e muitas dicas valiosas. No segundo dia da viagem, um abraço amigo fez toda a diferença.
E assim, segui pedalando..

